Família: por Cristo, com Cristo e em Cristo
Pe. Airton Freire
Os elementos constitutivos da vida a dois podem, sob diferentes ângulos e matizes ser abordados. Para todos, entretanto, o matrimônio só tem sentido enquanto instrumento que permite instalar, do lado de cada uma das partes, a regra de se viver um para o outro, sem perda da individualidade, o projeto de vida pelo qual ambos decidiram, no uso de sua liberdade.
Uma nova posição marca a vida conjugal, tanto para o homem quanto para a mulher. Há que se observar a regra dita de “cumplicidade”, pela qual ambos se percebam de um mesmo projeto fazendo parte.
É preciso sublinhar que o essencial, na permanência da relação a dois, reside em situar os mecanismos que levam a defesas dos dois lados, ao não se permitir inteiramente amar e, em decorrência, a não perdoar e superar limites próprios à humana condição. Impasses desta natureza conduzem a construir o seu próprio mundo quer para “ir levando até onde puder dar” quer como forma de compensação ao que se sente por não querer mudar. Neste caso, relativizando-se os conflitos, tomam-se os ditos pelos não ditos, interdito, bem ou mal ditos, “enquanto der para levar”. Antes de querer mudar, há de se perceber em ponto se está.
A continuidade dos propósitos que fundamentam a vida conjugal não decorre de um discurso sobre o que devem fazer, nem das intermináveis discussões sobre o melhor método que torne possível sua manutenção. O que se transmite pela via do que se mantém a dois decorre do íntimo conhecimento de si, potencial e limites, admitidos e trabalhados. Nessa construção da vida a dois, o que se adquire por vivência depende da disposição, de constante renovada, de manter-se esse lugar, espaço do possível de uma convivência saudável, sempre dialogada.
Marido e mulher são assim colocados na posição de administrar possíveis impasses, tensões, que comportam toda humana relação. Administrar a vida pessoal sem contradição com a vida a dois, será uma de suas funções esperadas na vida conjugal.
Superações ocorrem para suscitar e manter, de um para o outro, esta abertura que é a condição do prosseguimento da relação saudável.
Ponto pacífico é que a vida a dois é uma formação permanente.
A ética, na vida de um casal, regula-se sobre a manutenção de um espaço de liberdade e verdade, onde cada parte possa ser claro no seu desejo que, em situações diversas, será manifesto, num ato de reciprocidade. Esta ética funda-se sobre um princípio de alteridade que repousa não apenas sobre o reconhecimento do outro como diferente, mas também e, de princípio, sobre o reconhecimento de um lugar específico onde se desdobra o que do amor decorre, malgrado mal uso faça-se, não raro, dessa palavra.
Finalizemos esta nossa exposição com o pensamento do Cardeal James Francis Stafford na Peregrinação Aniversária de Julho em Fátima: “A espiritualidade conjugal fundamenta-se no mistério do Verbo Encarnado, Jesus Cristo, o Esposo da Igreja. A substância da primeira leitura, tirada do Livro do Génesis, repete-se e aprofunda-se na leitura tirada da Epístola aos Efésios: “E os dois serão uma só carne’. Este é um profundo mistério, e o que eu digo é que se refere a Cristo e à Igreja”. Aqui, São Paulo esclarece o mistério da comunhão de Cristo com os ‘santos’ da Igreja por meio de um sinal nupcial: o ser ‘uma só carne’ do homem e da mulher. Ele mostra assim que a nupcialidade é uma característica essencial do amor. E insiste em que o mistério da Encarnação encerra uma lógica especial. Quer dizer que o Deus Invisível Se torna Visível através de uma genuína manifestação de Si Mesmo no mundo do homem e em sua história. O Primeiro Prefácio de Natal transmite lindamente a representação que Deus faz de Si Mesmo na Encarnação: “Por meio do mistério do Verbo Encarnado, a nova luz da Vossa claridade brilhou aos olhos da nossa mente, para que, conhecendo nós Deus de modo visível, possamos ser arrebatados por este meio para o amor de coisas invisíveis”.
Janeiro de 2010.